ExpoEpi destaca integração de ações e respostas inovadoras para desafios da saúde pública
Evento reúne especialistas e experiências sobre mudanças climáticas, doenças transmissíveis e emergências sanitárias no SUS

Entre os destaques da programação desta quarta-feira (15) na Expoepi, o auditório Maria Zélia Rouquayrol abrigou uma mesa-redonda sobre a relação entre clima e saúde. A atividade foi conduzida por Agnes Soares, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde, que reforçou a necessidade de reconhecer a crise climática como uma grave emergência sanitária. “Estamos diante de uma crise climática que já se configura como uma emergência em saúde pública e que exige respostas imediatas do setor saúde, com ações articuladas entre governos, instituições e sociedade civil”, afirmou.
Ao longo do debate, a diretora chamou atenção para o fato de que as mudanças climáticas já afetam diretamente conquistas históricas da saúde pública. Avanços como a eliminação de doenças, a ampliação da cobertura vacinal e o tratamento de condições crônicas podem ser comprometidos se os efeitos da crise climática não forem incorporados às estratégias de vigilância e cuidado. “Se não incorporarmos os efeitos da crise climática às nossas estratégias, corremos o risco de retroceder em conquistas importantes da saúde pública”, disse. Nesse contexto, destacou ainda a importância de evitar a paralisia diante da complexidade do cenário e de avançar na adaptação das ações de saúde pública a uma realidade em constante transformação.
A mesa reuniu especialistas de diferentes países e áreas de atuação, evidenciando a importância da articulação intersetorial. O médico Luis Manuel Barreto Campos, do Conselho Nacional para a Qualidade em Saúde de Portugal, apresentou experiências que reforçam a integração entre setores como elemento central para a proteção da saúde humana, especialmente em cenários complexos relacionados ao clima.
Na sequência, Andrés G. (Willy) Lescano, da Universidade Peruana Cayetano Heredia, abordou os desafios da integração entre saúde e meio ambiente na América Latina, destacando a urgência de políticas públicas coordenadas e baseadas em evidências para enfrentar os impactos crescentes das mudanças climáticas na região.
O pesquisador Horacio Riojas Rodríguez, do Instituto Nacional de Saúde Pública do México, trouxe reflexões sobre a saúde global em um contexto de emergência climática, com ênfase nos impactos transnacionais e na necessidade de respostas articuladas entre países, sobretudo para a proteção de populações em situação de maior vulnerabilidade.
Encerrando a mesa, Rafaela Viana, representando a Presidência da COP30, apresentou estratégias de adaptação climática em discussão no âmbito da conferência, destacando oportunidades para o fortalecimento das políticas públicas de saúde e da cooperação internacional.
Ao longo do encontro, Agnes Soares também ressaltou que as respostas à crise climática precisam considerar as desigualdades já existentes, orientando as ações a partir do princípio da equidade, de forma a assegurar maior proteção às populações mais vulneráveis. “As respostas à crise climática precisam considerar as desigualdades já existentes, garantindo que as ações sejam orientadas pela equidade e protejam, sobretudo, as populações mais vulneráveis”, afirmou.
Mostras competitivas destacam experiências no SUS
Além dos debates, o auditório Maria Zélia Rouquayrol também promoveu mostras competitivas ao longo do dia, evidenciando experiências bem-sucedidas no enfrentamento de doenças transmissíveis, negligenciadas e emergências em saúde pública.
No período da manhã, sob a perspectiva de Uma Só Saúde, a atividade reuniu iniciativas que destacam a integração entre vigilância, gestão e atuação territorial no SUS. Moderada pelo coordenador-geral de Vigilância em Zoonoses e Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar do Ministério da Saúde, Francisco Edilson Ferreira de Lima Júnior, a sessão apresentou estratégias inovadoras, como o desenvolvimento de mapas de risco para arboviroses, exposto por João Paulo Cola, da Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, com aplicação direta na definição de prioridades e na tomada de decisão.
Na área de malária, Rosilene Ruffato, da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Velho, destacou a retomada da testagem de G6PD e o uso da tafenoquina no tratamento de casos por Plasmodium vivax, apontando avanços no cuidado e nas estratégias terapêuticas. Já Eric Daniel Cantuária, da Prefeitura de Porteirinha (MG), apresentou uma experiência de integração entre saúde e educação no enfrentamento da doença de Chagas, ampliando o conhecimento da população e fortalecendo ações de prevenção.
Ao final da sessão, o coordenador reforçou a importância da mostra como espaço de troca e fortalecimento das ações no território. “Fico muito feliz em ver essa sala cheia para prestigiar essas iniciativas. Discutir doenças negligenciadas dentro dessa perspectiva de Uma Só Saúde é fundamental para avançarmos em respostas mais efetivas e integradas no SUS”, concluiu.
No período da tarde, a programação seguiu com uma nova mostra competitiva voltada à preparação, vigilância e resposta às emergências em saúde pública. Coordenada por Edenilo Barreira Filho, diretor do Departamento de Emergências em Saúde Pública do Ministério da Saúde, a sessão reuniu experiências de diferentes regiões do país que evidenciam avanços na detecção precoce de eventos, no monitoramento e na resposta rápida a situações de risco.
“Trata-se de uma mostra competitiva, então temos critérios bem rigorosos para seguir, e vamos conduzir todo o processo com base nesses parâmetros”, explicou o coordenador ao apresentar a dinâmica da atividade, que contou com apresentações cronometradas, espaço para debate e votação das experiências.
Abrindo a sessão, Cristiane Wanderley Cardoso, do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde de Salvador, apresentou os avanços da vigilância sindrômica, destacando seu papel na identificação ágil de padrões de adoecimento e no apoio à tomada de decisão. “A vigilância em saúde exerce um papel central e estratégico na organização dos serviços. Ela funciona como uma bússola analítica, capaz de coletar, interpretar dados e orientar decisões que impactam diretamente na saúde da população”, afirmou.
Na sequência, Josiane Aparecida de Abreu Soares, da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, apresentou a vigilância baseada em eventos comunitários (VBEC), estratégia que amplia a detecção precoce de riscos à saúde ao incorporar a participação das comunidades, especialmente em áreas de difícil acesso.
Encerrando as apresentações, Matias da Silva, da Secretaria Municipal de Saúde do Recife, destacou a aplicação da métrica 7-1-7 para avaliar o tempo de detecção, notificação e resposta a eventos de interesse em saúde pública, contribuindo para a identificação de gargalos e o aprimoramento dos fluxos de trabalho.
A programação da tarde também incluiu uma mostra competitiva dedicada a trabalhos de pós-graduação, coordenada por Edgar Merchan Hamann, da Universidade de Brasília. A atividade destacou pesquisas aplicadas à realidade do SUS, com foco na qualificação da vigilância e da atenção à saúde.
Entre os estudos apresentados, destacou-se a gestão da vigilância de resíduos de agrotóxicos na água para consumo humano no Paraná, evidenciando a importância do monitoramento contínuo para a proteção da saúde da população. Outro trabalho abordou a hanseníase no município do Rio de Janeiro, com análise espacial e temporal dos casos ao longo de quase uma década. Também foi apresentada a construção e validação de um instrumento voltado ao acolhimento da população LGBTQIAPN+ nos serviços de saúde.
De acordo com Edenilo, ao promover a troca de experiências, valorizar iniciativas bem-sucedidas e estimular a inovação, a mostra contribui diretamente para o aprimoramento das práticas no âmbito do SUS. Nesse sentido, Edenilo Barreira reforça essa relevância ao afirmar que “esse espaço é fundamental para compartilhar conhecimento, reconhecer iniciativas bem-sucedidas e fortalecer a capacidade de resposta do SUS frente às emergências em saúde pública”, destacando o papel central de ações colaborativas na construção de um sistema de saúde mais eficiente e preparado.
João Moraes
Ministério da Saúde
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